Como usar hospital público na Itália

loremipsum // 6 de fevereiro de 2017

Estar grávida em outro país já é desconfortável o suficiente pela língua e por você ter que pesquisar como tudo funciona e se encaixar no método deles. Agora estar grávida em outro país, no começo da gestação e ter um sangramento é tipo: ME DEVOLVE PARA O BRASIL, PLEASE?

Como vocês ja devem saber, estamos fora do Brasil para dar entrada no processo da cidadania Italiana e depois de tudo pronto ficar por Londres. Quando eu descobri a gravidez estava em Londres, mas poucos dias depois tive que ir para a Itália. Tivemos que ficar na Itália mais do que gostaríamos por conta de alguns problemas com a cidadania e foi aí que tudo começou.

Se você me acompanha sabe que infelizmente perdemos o bebê. Confiamos em Deus e acreditamos que tudo está nas mãos dEle, então estamos bem!

Eu acordei um domingo de manhã fui ao banheiro e quando me dei conta estava com um sangramento! Não era um SUPER sangramento, mas era um sangramento. Eu já tinha pesquisado como seria se eu precisasse usar o serviço público da Itália como turista e sabia que é possível usar se:

  1. For contribuinte do INSS no Brasil, já que Brasil e Itália tem um acordo que possibilita este acontecimento. Você precisa apresentar passaporte e último comprovante de contribuição ou extrato de contribuição. Mas MINHA GENTE DO CÉU, quem viaja com isso? E de qualquer forma eu tinha parado de trabalhar já fazia uns 5 meses. Agora você minha filha, vai vir para a Itália? Trás tudo isso aí :)
  2. Se você tiver com o Permesso di Soggiorno, que é um status que você recebe quando dá entrada no processo de cidadania (ou quase assim).
  3. Emergência! Eles são obrigados a te atender.

Agora você imagina a nossa situação! Fala Italiano minha filha? Não! Tem amigos perto? Não! Sabe o endereço do hospital para emergência? Não!

Tivemos que recorrer a nossa assessora que muito gentilmente nos levou ao hospital, fez a ficha, explicou o que estava acontecendo e entrou na sala de exame comigo.

A ficha foi feita de forma bem rápida e apenas com o meu passaporte e eles não pediram nada a mais, foi bem tranquilo. O hospital era gigantesco e tinha TODAS as especialidades que você consegue imaginar. Pegamos o elevador e fomos para a área de ginecologia.

Ok, neste momento começa a parte de desconforto com a língua e serviço público!

Nos chamaram bem rapidinho e a moça que nos atendeu inicialmente era um amor 😀 (um beijo para você moça). Quando entramos na sala (eu e a assessora) descobrimos que a pessoa que fez a ficha colocou meu primeiro nome como: São Paulo. HAHAHAHAHAHAHA foi engraçado, mas elas não podiam me atender se a ficha não estivesse certa então tivemos que esperar mais um pouco para o atendimento.

Quando eu pude ser atendida estavam na sala 3 pessoas, acredito que 3 médicos e 2 deles eram estudantes. Era uma sala grande com o aparelho de ultra-sonografia e a conversa foi mais ou menos assim:

Médico: Ok, pode tirar a calça!
Minha consciência: Oi? Como assim pode tirar a calça? Não tem um lugarzinho? Eu tiro assim no meio da sala e coloco aqui na cadeira? E deito aí sem nenhum paninho em cima de mim?
Eu: Aqui?
Médico: Sim!

A situação foi bem desconfortável, o médico era bem… direto vamos dizer assim. Me entendam, eu não esperava nada a mais do que isso, eu sei o que significa serviço público de saúde, e isso provavelmente em qualquer lugar do mundo. O importante, é claro, é que eu fui atendida e descobri que estava tudo bem naquele momento.

Acontece que na terça eu acordo com um puta sangramento e já fui me conformando com a possibilidade de estar tendo um aborto. Aí sim, neste momento eu chorei! Chorei pela possibilidade, chorei porque queria estar no meu pais para entender tudo o que me diriam, chorei porque queria mais família e amigos por perto e chorei porque eu queria um serviço privado (me julguem).

Chegamos no hospital e como eu já tinha passagem foi bem rápido o cadastro e logo estávamos na sala para fazer o exame. Eu entrei na sala e estavam lá apenas 2 pessoas, a moça legal da última vez e uma médica bem nova.

A médica perguntou se eu não falava nada em italiano e eu disse que não (não saia nem o Terra Nostra minha gente), ela então perguntou se eu falava inglês e neste momento eu ouvi uma música linda dentro da minha cabeça. Ahhhhh eu poderia me comunicar e entender exatamente o que estava acontecendo.

Eu já sabia que não teria lugar reservado, não teria lençolzinho então nem me demorei no meu diálogo interno. Mas desta vez tinha um agravante… a janela estava aberta…. A JANELA ESTAVA ABEEEERTA! Ok, não tinha muito o que fazer e talvez alguém mais na Itália assistiu ao exame.

E então estava lá eu deitada usando todo o meu inglês falho e a sala começou a ter um número demasiado grande de pessoas. Eu estava lá, desconfortável e fazendo um exame trasvaginal (se você não sabe o que é da um google amigo) e a porta abria e fechava e mais uma pessoa entrava. Naquele momento eu estava de coração apertado de tanta saudade do Hospital São Luiz rs….

Depois de uma conversação, que parecia não acabar nunca, a médica resolveu falar comigo. Não tinha motivo para o sangramento e estava tudo bem e blá, blá e blá!

Considerações finais: Se você tiver uma emergência será atendido na Itália sim! O que for preciso será feito sim, mas não espere privacidade :)

Ah para quem estiver se perguntando, sim nós tínhamos o seguro saúde mas infelizmente não cobre absolutamente nada de gravidez, mesmo emergência.

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