Como é ser mãe na França

loremipsum // 7 de junho de 2019

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Oi! A ideia do quadro Expatriada e Mãe, é para que outras mães que querem também entrar nesta jornada possam se sentir acolhidas, ter informações e tirar dúvidas. Mas é também para aquelas mães que tem curiosidade em como é ser mãe estando em outro país. Por isso, para começar, hoje teremos a Ana, uma amiga que a internet meu deu e eu sou muito grata a Deus por isso. Pega a pipoca e senta para ler como é ser uma mãe na França 😉

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Meu nome é Ana Bourderionnet , sou casada há 8 anos com um francês e mãe de um rapaz de 18 anos (do meu primeiro casamento) e de uma menina de 7 anos, filha desse segundo casamento.

Nunca pensei em me relacionar com estrangeiro, na verdade, quando mais nova, eu tinha era medo. Mas enfim, por um acaso do destino isso aconteceu no final de 2009. Começamos com uma rápida amizade pela Internet, que eu só aceitei manter, porque tínhamos amigos em comum, pessoas que me davam boas referências dele. Em janeiro de 2010, ele decidiu ir morar no Brasil e aí sim virou namoro de fato. Em abril de 2011 casamos no civil e em janeiro de 2012 nasceu nossa menina.

Foi a partir daí que comecei a pensar em uma vida no exterior. Sempre quis conhecer outro país, viajar, mas foi só a partir desse momento que realmente acordei pra essa possibilidade.

Em 2016, após 5 anos de casada, decidimos que seria a hora do meu marido voltar ao seu país. A vida financeira no Brasil estava bem apertada, tínhamos dificuldades em pagar as contas no final do mês, não tínhamos muito lazer e olha que nós dois trabalhávamos. Ou seja, as despesas eram sempre maiores do que aquilo que recebíamos.

Meu marido veio pra França em junho de 2016; eu vim com as crianças (na época 16 e 5 anos) e duas cachorras em março de 2017. Mas antes de vir comecei a pesquisar sobre brasileiros que já moravam no exterior e a acompanhar suas rotinas, dificuldades, medos e alegrias. Ou seja, eu já sabia que não seria fácil.

Dia 07 de março de 2017, fui pro aeroporto de Belém do Pará com 10 malas, 2 crianças, 2 cachorras, cheia de sonhos de uma vida melhor mas com um aperto tão grande no coração pelo que eu estava deixando pra trás: uma família imensa e muito presente na minha vida.  No dia 08 de março de 2017, aos 39 anos pisei no exterior pela primeira vez. Começava ali um novo ciclo que também decidi contar nas redes sociais pra ajudar outras pessoas e deixar registrado nossa experiência.

O primeiro impacto foi o clima, porque quando chegamos fazia 13 graus e isso pra uma família do Norte do Brasil, já é frio. O frio é doloroso se você não tem roupas adequadas e um bom aquecimento em casa. Graças a Deus eu tive! O segundo foi o idioma! No Brasil estudei inglês por 10 anos, só que a França não é um dos países que aceita inglês como segunda língua. Aqui, ou você fala francês ; ou você fala francês. Eu já tinha algum conhecimento básico da língua francesa mas meus filhos não. Chegaram zerados.

Aqui na França, moramos em uma cidade de campo. Minha filha foi na escola uma semana depois de chegar do Brasil e meu filho 3 semanas depois. Pra ela foi muito tranquilo, em 3 meses, ela já conversava em francês e sem nenhum sotaque. O menino com 16 anos, já teve mais dificuldades mas mesmo assim, como passam o dia todo na escola absorvem melhor e mais rápido. Agora eu? Bem, eu ficava o dia todo em casa, com meus pensamentos em português, meu celular em português, minhas idéias em português e quando os filhos e marido chegavam, todos falavam (e ainda falam) em português. É! Pra mim foi bem mais difícil. Apesar que dizem que já falo bem, eu ainda não estou satisfeita, tô sempre buscando melhorar.

O que de fato nos motivou a mudar de país, foi buscar uma qualidade de vida melhor e isso nós temos agora. Depois de 1 ano e 7 meses conseguimos financiar nossa casa própria, temos 2 carros e eu nem faço idéia de como conseguiria isso no Brasil. Aqui temos a impressão que nosso dinheiro tem mais valor porque conseguimos comprar mais coisas sem que ele acabe. No Brasil, com o salário mínimo você tem muita dificuldade de comprar as coisas à vista porque as coisas custam mais que o valor do salário mínimo. Uma geladeira nova, uma TV por exemplo, custam mais de 1200 reais e o salário mínimo é menor que mil reais.

Aqui, nós compramos uma geladeira, um freezer, um micro-ondas e uma máquina de lavar roupa (num único mês) que custou um total de 700 euros e o salário mínimo aqui é 1200 euros aproximadamente. Ou seja, mesmo que você ganhe o mínimo, ainda sobraria dinheiro. E nessa época eu não contribuía financeiramente em casa.

As roupas, acessórios e calçados são baratos aqui, mesmo algumas marcas. Vejo que no Brasil, pra você ter um tênis de marca você precisa parcelar de 10x e algumas marcas só ricos podem ter. Aqui o preço da Nike, Adidas são acessíveis à todos e você pode comprar à vista. Não precisa escolher entre comprar um tênis e fazer o supermercado da semana. Ahhh e no supermercado você pode encher um carrinho sem ter que hipotecar a casa. Rs.

As vantagens de morar aqui são muitas: financeiramente é melhor, andar nas ruas sem estar em alerta total é muito bom. No trânsito, em geral, são mais calmos e educados; na maioria das vezes não precisam de sinais de trânsito e placas te obrigando a parar pro pedestre ou ciclista, eles param simplesmente. Os ciclistas aqui (fiquei boba) tem prioridade sempre; alguns andam literalmente no meio da rua e os carros atrás simplesmente aceitam, respeitam, não buzinam e esperam o melhor momento de ultrapassar com segurança para ambos. Isso é normal pra eles. Claro que em cidades grandes, o trânsito é mais conturbado, mas ainda assim, é melhor que nosso trânsito brasileiro.

Mas calma! Nem tudo são flores! Eu quando vim pra cá sabia que teria dificuldades também. A França é um país muito burocrático, você precisa acumular muitos papéis e ter muita paciência pra ver suas questões demorarem às vezes 1 ano ou mais pra serem tratadas. Alguns procedimentos são ultrapassados (na visão de um brasileiro) , por exemplo já estamos na era dos e-mails mas eles preferem mandar tudo pelo correio, já estamos na era do cartão de débito e eles amam e utilizam muito o cheque e inclusive mandam os cheques pelo correio. Já aconteceu da gente ter que pagar 5 euros na escola da minha filha, darmos em espécie e o diretor recusar e pedir que fizéssemos um cheque ‍♀️.

Nas cidades pequenas (como a minha) ter carro é obrigatório porque aqui não tem ônibus de linha , não tem meio nenhum de locomoção. Ou você tem carro, ou pede carona ou vai a pé mesmo. O único ônibus que vem aqui é o escolar.
No Brasil, resolvemos tudo na nossa própria cidade. Aqui é comum você ter que ir a outra cidade pra resolver diferentes questões, por exemplo, eu faço 1 hora de estrada pra fazer minhas documentações e tem gente que faz até 4 horas. Se eu quero ir na farmácia ou correio, tenho que ir a outra cidade. Isso eu detesto! No Brasil eu ia na farmácia a pé e aqui tenho que pegar o carro.

Eles também não são muito festivos, são mais reservados e é difícil você fazer amizades. É comum você trabalhar há anos com uma pessoa e não saber nada da vida dela. E já no Brasil somo muito abertos à novas amizades.

Também tenho muita dificuldade na área profissional. Ainda não consegui me encontrar. Sei o que não quero fazer mas tenho dificuldade em descobrir o que quero como profissão aqui. Em muitos lugares você precisa de formação pra trabalhar e a impressão que tenho é que eles não gostam de perder tempo com treinamentos. Eles te explicam uma ou duas vezes no máximo, se você não entendeu eles já te dispensam. Não vejo também os jovens querendo ir a faculdade. No campo da saúde é bom e não é. É bom porque não precisamos pagar muito; na farmácia quase nunca pagamos pelos medicamentos. E é ruim porque pra ir a um especialista você precisa de um encaminhamento do médico de família; às vezes você precisa procurar muito pra achar um dentista, um fisioterapeuta e nas urgência, é comum você esperar 2 ou 3 horas pra ser atendido. No Brasil, com plano de saúde, nunca esperei tanto nas urgência como espero aqui. Crianças e idosos não passam na frente de ninguém, são atendidos pela vez. Minha filha com o queixo aberto esperou 2 horas e meia pra ser atendida na urgência e fui eu mesma que protegi o corte dela.

Enfim, eu poderia citar muitas outras questões mas aí esse texto não acabaria. Rs.

Morar fora é sempre uma dualidade de sentimentos, principalmente pra quem é mãe. Pagamos um preço por querer dar o melhor aos nossos filhos. Somos julgadas às vezes, porque demos prioridade a uma vida material melhor. Não é fácil, gente! Temos muitos momentos bons mas também choramos, sentimos falta da família, perdemos pessoas que deixamos no Brasil e quando voltarmos não estarão mais lá. É difícil! Precisamos sempre nos sintonizar em boas energias, ter fé, equilibrar as emoções, saber lidar com as angústias e a saudade porque se não, é muito fácil entrar em depressão.

Aqui nós também trabalhamos fora, cuidamos da casa, dos filhos, vivemos melhor financeiramente mas às vezes o emocional é muito abalado. É muito importante que a família de quem partiu ao exterior, não corte os laços, não deixe de procurar, de se importar. Eu sempre estou em contato com a minha e eles também me procuram mas já vi declarações de pessoas que sofrem com o esquecimento dos seus familiares.

Eu costumo dizer que “estou aqui, mas também estou aí” porque de fato meu coração ainda não é francês (talvez um dia, quem sabe). Ainda comparo muito Brasil e França, ainda sinto muita falta da nossa alegria, que é única. E a parte mais difícil é ficar longe da família porque no Brasil vivemos (no geral) muito próximo das nossas famílias. E aqui não se vê muito disso. Não é bem visto depois dos 25 anos você morar com os pais e é super normal os idosos irem pra casas de repouso ao invés de serem cuidados por seus filhos e netos.

Termino dizendo que vale muito a pena você ter a experiência de morar fora do seu país, aprender sobre outras culturas e outros idiomas. Se você pensa em mudar, não tenha medo. Se jogue! Assuma os riscos das suas escolhas e  saiba que não é feio voltar ao seu país caso não dê certo. Mas acho que vale a tentativa e se lembre que o mundo é muito grande pra você ficar sempre no mesmo lugar. Eu estou aqui, mas sempre estarei aí Brasil.

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